quinta-feira, 30, junho, 2022
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F1 – As duas faces de um campeão

Villeneuve x Schumacher

Colaboração: Antonio Carlos Mello Cesar

Um cãozinho vira-lata, sujo, magro, vagueia pelo autódromo de Interlagos, tarde aprazível, ensolarada, dois dias antes das práticas livres. Nos boxes, meio à montagem dos carros, pausa para almoço, na cozinha aroma capitoso atrai o animal.

Tímido, ressabiado, faminto, a pobre criatura decide arriscar, quem sabe consiga um pouco de comida, até mesmo água, o sol está de lascar. Imediatamente pessoas correm para captura-lo, desnorteado tenta escapar, busca refúgio na garagem da Ferrari, percebe o erro, ficou cercado, os olhos imploram clemência.

Schumacher, antes que alguém possa fazê-lo, detém o bicho bastante assustado, usa palavras meigas, improvisa um pote de água e granjeia confiança. Na manhã seguinte podia-se ver o piloto alemão no luxuoso átrio do Hotel Transamérica conduzindo aquele vira-lata roto, agora limpo, barriga cheia, para um passeio pelos jardins da hospedagem cinco estrelas.

Grande Prêmio da Europa, 1997, Jerez, última prova do ano, apenas um ponto separa os dois postulantes ao título, Michael Schumacher 78 pontos, Jacques Villeneuve 77. Prenuncio de embate espetacular, treinos classificatórios confirmam expectativa: Jacques (Willians), Michael (Ferrari), Heinz-Harold Frentzen (Willians) cravam tempos idênticos 1.21.072. A pole coube a Villeneuve.

Volta quarenta e oito Shumi lidera, Villeneuve o persegue, sai do vácuo, pega a parte interna da curva, ultrapassagem inexorável, o alemão acintoso, sem escrúpulos, joga seu carro contra a Willians. Michael atola na brita, feitiço contra feiticeiro, Jacques sobrevive ao acidente, perde posições, mas chega em terceiro lugar, vence o campeonato.

Face antagônica a pilotagem agressiva, por vezes desleal, Schumacher promovia palestras sobre trânsito seguro, respeito às regras, redução da velocidade em vias públicas. Os fundos auferidos nestes eventos, integralmente revertidos para instituições voltadas à conscientização de motoristas e mudança das leis de trânsito.

O mundo insurgiu-se contra Michael pós Jerez de La Frontera, era um ato reincidente, ninguém havia esquecido Adelaide, Austrália, quando atitude semelhante tirou Damon Hill da prova decisiva e lhe garantiu o título de 1994. Punição da FIA no caso Villeneuve foi exemplar, Schumacher perdeu todos os pontos da temporada, castigo único, inédito na história da F1.

Jornais britânicos não pouparam críticas ao piloto alemão, além de rememorar o incidente com Damon Hill: The Sunday Times: Sua reputação foi sacrificada por um ato de tal cinismo, que perdeu direito a qualquer tipo de simpatia; Daily Mail: Desapareceu o último vestígio de dignidade como esportista. Até o italiano La Stampa periódico da família Agnelli, controladora do grupo Fiat, reprovou Schumacher: Esperamos um título de pilotos há muito tempo, mas isto deve acontecer com final digno.

Entre aqueles cuja censura ocorreu de maneira oposta, estava Willy Weber empresário do piloto: Quando se toma uma ação deliberada, há que se fazer da forma correta, modo igual a Senna contra Prost no Japão 1990.

Embaixador da UNESCO, Schumacher visitou a Península Balcânica, data posterior aos conflitos entre as etnias Bósnia, Croata e Sérvia. Região que ainda amargava destruição, mortes e trezentos mil feridos. Consternado diante crianças lesionadas pela guerra, financiou construção de hospital infantil em Saravejo, usando recursos próprios.

Atos humanitários do piloto verteram mundo a fora, entre eles, edificação escolar na cidade de Dacar, Senegal. Albergue no Peru, quando 70% da população sobreviviam na pobreza. Cinco milhões de dólares destinados à pesquisa do cérebro e medula espinhal realizada pelo Instituto Clinton, corporação sem fins lucrativos.

Maior doação pessoa física para quatorze países do Sudeste Asiático devastados pelo Tsunami em 2004, U$D 10 milhões de dólares, R$ 55.000.000,00, câmbio atual. Estima-se que seu legado filantrópico, até o infeliz episódio nos Alpes Franceses, atingiu U$D 80.000.000 quase meio bilhão de reais.

Locutor da F1 pela BBC durante décadas Murray Walker considera Hamilton, piloto limpo, sem táticas controversas de pilotagem superior a Schumacher. Fora da pista Lewis um ativista político, Michael o campeão generoso.

Antonio Carlos Mello Cesar
São Paulo – SP

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